domingo, 21 de outubro de 2012

Chicote e paraíso(conto)


 
Que se lembrasse, desde quando era pouco mais que um potro, sua vida consistia em puxar carroças com cargas pesadas todo santo dia. Não tinha folga nem nos feriados e nem nos finais de semana.
Não tivera sorte com o dono, pessoa grosseira e insensível que não sabia ser amável com as pessoas, quanto mais com animais, e apenas se preocupava em transportar o maior número d
e cargas por dia para amealhar mais dinheiro.
Jamais recebera um afago sequer, uma palavra de carinho que fosse. Mas sempre obedecia humildemente e fazia tudo direitinho para não desagradar o dono.
Quantas e quantas vezes o carroceiro esquecia-se de lhe dar água e o deixava salivando de sede sob o sol escaldante, a garganta seca pela poeira da estrada.
Em certas noites, o homem deixava-o com os arreios, por pura preguiça mesmo, atando-o numa árvore longe do pasto.
Incontáveis vezes foi açoitado só porque o dono estava nervoso com alguma coisa e tinha que descontar em alguém, e sempre era ele o saco de pancadas.
Enquanto jovem, conseguia suportar as cargas e trotava velozmente, mesmo nas subidas íngremes para não ser chicoteado. Mas agora que estava velho e as forças lhe fugiam, não conseguia puxar, como antigamente, as pesadas cargas morro acima.
Naquele dia seu velho corpo fraquejou e os joelhos dobraram-se. O dono, fora de si, urrava: “Vamos preguiçoso! Isso é hora de descansar?” e começou a espancá-lo sem dó e nem piedade.
O chicote zunia no ar e descia estalando no lombo. E mais e mais chicotadas lanhavam o dorso já gasto e com falhas de pelos. Não conseguia se levantar, as pernas fraquejavam e dobravam novamente. A visão turvou, e, exausto, deitou no chão o corpo franzino e judiado. O carroceiro vendo aquilo, começou a chutar-lhe o rosto e jogou um balde de água fria em sua face.
Mas já não estava mais ali, seu espírito abandonara a velha carcaça. Agora sentia-se leve, revigorado.
Conseguia trotar garbosamente e pastava numa campina muito verde onde havia uma cachoeira de águas límpidas e frescas. Podia correr livremente, sem arreios, sem freios, sem carroças, sem cargas para puxar. E sem chicotes!
Via outros animais livres e vigorosos como ele, trotando e saltitando felizes pelos campos.
Era o paraíso almejado, o céu dos animais!
Teria agora o merecido descanso por toda a eternidade...

(Ivana Maria França de Negri)

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